OS IDIOTAS DA OBJETIVIDADE

Paulo Brondi

Leio que a Rádio MEC (“Música, Educação e Cultura”), a mais antiga em funcionamento no país, criada em 1923, será extinta pelo Governo federal. A rádio, fundada pelo antropólogo e pai da rádiodifusão no país, Edgard Roquette-Pinto, e doada anos depois à União, contém em seu acervo mais de 50 mil gravações, com depoimentos de personagens da história brasileira como Monteiro Lobato, Getúlio Vargas, Manuel Bandeira e outros.

Em sua descrição no site, consta que “A programação é totalmente voltada para a difusão da cultura brasileira. Contempla toda a diversidade da música brasileira, de gêneros como o choro, a música regional, a música instrumental e de concerto. Tem ainda programas dedicados à literatura, cinema, dramaturgia e as artes como um todo”.

Para o governo de plantão, porém, trata-se de coisa obsoleta, a consumir demasiado o erário.
Não sei por que, mas ao ler a notícia me veio à memória uma discussão que, anos atrás, em época de Copa do Mundo, vinha sempre à tona: jogar bonito ou vencer?

Era sempre um tema travado por duas facções: uma a sustentar que o futebol brasileiro não deveria abandonar suas raízes, do futebol bem jogado, dos lances de efeito, da alegria; outra, a de que o importante era mesmo e tão somente o resultado final.

Esta última corrente sempre se fiou à “Tragédia do Sarriá”, quando, em 1982, a seleção canarinho, apesar do jogo vistoso, terminou derrotada por uma Itália quase combalida, pragmática, que acabaria campeã do certame naquele ano. Nosso técnico era Telê Santana, e o quadro contava craques como Zico, Cerezo, Falcão, Sócrates.
A derrota foi um divisor de águas: nos anos seguintes, o discurso oficial era o de que de nada adiantava jogar bonito, mas perder. Lazaroni, Parreira, Scolari, Dunga e outros, ganhadores e vencedores, espezinhavam a não mais poder a lenda urbana do “jogar bonito”, adeptos que eram do “futebol de resultados”.

O reducionismo mequetrefe limitou tal discussão ao simples “jogar bonito ou vencer”, como se fosse disso que se tratava. Ora, ninguém é tolo de pregar que se deve jogar “bonito”, apenas, não importando a vitória ou a derrota. Telê, que viveu até o fim de sua vida envolto nessa polêmica, nunca abdicou da vitória. Aliás, anos depois levou o onze tricolor paulista às máximas conquistas nacionais e mundiais desfilando um futebol vistoso, elegante, nada pragmático. O Mestre sempre, sim, assinalou que era o jogador brasileiro quem detinha todas as condições para jogar bonito e vencer.

Bem, se o Zico não ganhou uma Copa do Mundo, azar da Copa do Mundo (Fernando Calazans).
Mas os idiotas da objetividade, talvez por não entenderem a lição, talvez por não poderem aplicá-la, reduziam tudo àquela (falsa) dicotomia. Ou claro, ou escuro.

A arte, incluindo o futebol, é um fim em si mesma. Não há que se esperar dela uma utilidade material imediata. “O que isso acrescenta em sua vida?” é um pergunta inoportuna. A arte é útil por si só, em muitos aspectos, sobretudo ao bem-estar da consciência. Baumann dizia que “a sabedoria não envelhece”. A arte também não. Numa era em que as grandes ideias perdem credibilidade, ela se torna mais e mais imprescindível. Viver sem arte é morrer um pouco a cada minuto.

A arte de cantar, de tocar um instrumento, de cozinhar, de fazer poesia, de dançar, enfim, a arte em qualquer das suas modalidades personifica o momento em que a mente se descola da bruta realidade para dar vivas cores ao que a criatividade nos determina, ali, naquele exato instante. Razão se dê a Marcel Duchamp (pintor, escultor e poeta francês), para quem “a arte pode ser ruim, boa ou indiferente, mas qualquer que seja o adjetivo empregado, temos que chama-la de arte. A arte ruim é arte, do mesmo modo como uma emoção ruim é emoção”.

Os beócios temem a cultura (ou a arte), de modo geral, pois nela está a gênese de uma intellegentsia que os amedronta, porque símbolo de contestação à ignorância, à vulgaridade, à indigência mental que guiam seu proceder em todos momentos, em qualquer lugar.

Nosso mandatário maior, referindo-se à recente morte do gênio João Gilberto, inventor da bossa-nova, limitou-se a dizer que se tratava “de uma pessoa conhecida” – mostrou apreço maior ao respeitável ‘MC Reaça’. Somem-se a tal mostra de desprezo os disparates da choldra que tomou de assalto o poder central contra a classe artística – a salvo, claro, aquela fração fascistóide que vê na arte a fresta para exteriorizar suas afetações.

Essa turma, complexada, é obtusa nas atitudes, nas palavras e nos pensamentos. Vivem para que, afinal?

Millôr Fernandes escreveu que “todo tempo de grande opressão é tempo de grandes sutilezas”.
Num tempo sem delicadezas, de gente cinza e de ideias banais, amar a arte é um ato revolucionário, e defende-la é dever que se espraia à alma e impõe-se ao espírito.”

Paulo Brondi é promotor de justiça do Ministério Público de Goiás




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